Neste episódio o Fred traz os vários modelos de IA que estão a entrar no mercado vindos da China e não só.
Episódio de 25/09/2026
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[FRED]
Li este fim de semana um artigo do New York Times com um título provocador: a Inteligência Artificial chinesa está a dar um “grande salto em frente”, enquanto a economia do país atravessa dificuldades bastante mais profundas.
O contraste é interessante.
A China enfrenta problemas sérios no consumo, no imobiliário e no emprego jovem — a taxa de desemprego entre os 16 e os 24 anos, excluindo estudantes, chegou aos 18,9% em agosto. Ao mesmo tempo, Pequim continua a apostar fortemente em tecnologia e prepara, segundo a Bloomberg, um plano de cerca de 295 mil milhões de dólares para data centers nos próximos cinco anos.
Há economistas chineses citados pelo New York Times que questionam precisamente esta escolha: quanto capital deve um país colocar em IA quando poderia estar a estimular consumo, emprego e rendimento das famílias?
Mas o artigo fez-me pensar noutra coisa.
Será que nós, no Ocidente, ainda estamos a perceber mal o que está a acontecer com a IA chinesa?
Porque se hoje tivesse de escrever no quadro três nomes chineses que um profissional de marketing ou um gestor devia conhecer, escreveria: DeepSeek, Qwen e Kimi.
Do lado ocidental, as três grandes referências de ecossistema continuam a ser OpenAI, Anthropic e Google, hoje com modelos de fronteira como GPT-6 Astra, Claude Fable 5.1 e Gemini 3.8 Flash.
E convém perceber uma coisa: a corrida já não é apenas para construir “o modelo mais inteligente do mundo”.
Passámos de modelos que essencialmente completavam texto para sistemas que raciocinam, veem imagens, chamam ferramentas, programam, pesquisam e conseguem executar tarefas durante horas.
Agora há outra competição: quanta inteligência consigo entregar por euro gasto?
E é aqui que a China se tornou particularmente interessante.
As empresas chinesas têm sido obrigadas a competir com restrições de acesso a determinados chips e com muito menos capital do que algumas rivais americanas. Uma das consequências tem sido uma obsessão maior com eficiência, custo e abertura. A Reuters descreveu recentemente esta dinâmica como uma espécie de economia brutal: modelos chineses muito próximos da fronteira, mas obrigados a fazer mais com menos.
Veja-se o DeepSeek V4.1 Flash. Em horário de pico, custa cerca de 30 cêntimos por milhão de tokens de entrada e 1,20 dólares de saída. Fora das horas de pico, metade.
O Qwen3.8-Max, da Alibaba, está nos 1,65 dólares de entrada e 4,95 de saída. E a família Qwen já não é apenas um chatbot chinês: a Alibaba afirma que os seus modelos ultrapassaram 3 mil milhões de downloads e deram origem a mais de 300 mil modelos derivados.
Podia falar do. Kimi K3, da Moonshot: entre outros.
Agora comparemos, com um cuidado importante: preço não significa qualidade equivalente.
O GPT-6 Astra custa 10 dólares de entrada e 50 de saída por milhão de tokens. O Claude Fable 5.1, também 10 e 50. O Gemini 3.8 Flash está temporariamente nos 75 cêntimos e 3,75 dólares.
É aqui que, para mim, está o sumo para quem trabalha em marketing e gestão.
A China não está apenas a tentar construir modelos grandes.
Está a pressionar o mercado em três frentes: eficiência, preço e modelos de pesos abertos.
É quase como se os Estados Unidos estivessem concentrados em construir o melhor carro de Fórmula 1 e algumas empresas chinesas perguntassem:
“Muito bonito. Agora, quanto custa cada volta — e posso levar o motor para casa?”
E há uma consequência para marketing que me parece ainda mais importante.
Se a inteligência ficar suficientemente barata, produzir deixa de ser a vantagem competitiva.
Gerar 100 anúncios, analisar 50 mil comentários, criar versões de emails ou adaptar conteúdos a dezenas de segmentos pode tornar-se banal e barato.
Se todos conseguirem produzir mais, mais depressa e por menos dinheiro, o diferencial volta a deslocar-se para coisas bastante menos automatizáveis: produto, marca, distribuição, conhecimento do cliente e uma boa ideia.
E a Alibaba acrescenta outra peça a esta história. O Qwen já está integrado no Taobao e Tmall, com acesso a mais de 4 mil milhões de produtos. O utilizador pode conversar, comparar produtos, fazer uma encomenda e acompanhar a entrega dentro da mesma experiência. A IA deixa de ser apenas a ferramenta que ajuda o marketer a criar uma campanha. Começa a ser também a interface que decide quais marcas chegam à shortlist do consumidor.
É uma mudança subtil, mas enorme.
Durante anos, o marketing digital tentou levar pessoas até aos produtos.
Agora podemos estar a entrar numa fase em que será necessário garantir que os produtos também são compreendidos, considerados e escolhidos pelos agentes que trabalham em nome dessas pessoas.
Há limitações, naturalmente. Questões de segurança, privacidade, soberania, legislação e controlo de dados são particularmente relevantes para empresas europeias. E modelos mais baratos ou abertos não são automaticamente modelos melhores.
Mas começa a ser difícil continuar a falar da China apenas como perseguidora.
Talvez a contribuição mais interessante da IA chinesa nem seja provar que consegue construir o modelo número um.
E, para nós no marketing:
Pergunta 1: o que acontece quando essa inteligência fica tão barata que toda a gente consegue produzir praticamente tudo?
Pergunta 2: Se os modelos chineses continuarem a apostar em modelos abertos ou preços agressivos, será mais importante ter o melhor modelo do mundo — ou conseguir que milhares de empresas e programadores construam em cima dele?
Sobre o Podcast Marketing por Idiotas
O podcast Marketing por Idiotas é um podcast sobre marketing em Portugal. Neste podcast semanal falamos sobre notícias, irritações e inquietações sobre marketing digital e analógico.
O podcast é apresentado pelos comentadores com lugar cativo o freelancer de marketing digital para ONGs Diogo Abrantes da Silva, o formador e consultor Frederico Carvalho e o CEO da pkina.com e funis.pt Miguel Rão Vieira.

Os Idiotas
Frederico Carvalho
Formador e consultor de marketing digital
Miguel Rão Vieira
CEO @ pkina.com / funis.pt
Diogo Abrantes da Silva
Freelancer SEO, SEA, CRO e Web Analytics
